Por Jonas Souza
Dando seqüência ao nosso exercício de reflexão, cabe agora discorrer sobre o que a música é. Quando comecei a pensar sobre isso, me veio à mente a seguinte expressão: Cantar é fácil; difícil é ressignificar.
O termo ressignificar, que eu empresto do meu amigo Davi Julião, atende bem ao nosso assunto, à medida em que analisamos o ministério das pessoas que trabalham com música na igreja.
A necessidade de se trabalhar com cânticos de fácil aprendizado, que sejam acessíveis à congregação, pode fazer com que os músicos e cantores eventualmente se sintam “enjoados” de executar coisas repetidas, elementares, e por vezes até clichês, principalmente quando há várias igrejas reunidas, e os cânticos têm que ser familiares a todos. É aí que se apela para os clássicos. A verdade é que, de qualquer forma, na responsabilidade de servir a igreja, executamos o que Deus realmente põe no repertório.
Mas há outra questão dentro disso: mesmo os cânticos novos, por serem fáceis, ficam comuns em pouco tempo. A própria igreja pode ser vítima desta problemática, porque de uma certa forma, ela tem a letra na ponta da língua, os gestos, há quem abra vozes, e de uma forma geral, é tudo muito previsível.
Quero dizer com tudo isso, que esta é uma questão séria, mas não insolúvel. É preciso ressignificar a maneira como tratamos as músicas. Eu proponho três frentes:
Ressignificar os arranjos – Há hinos e cânticos valiosos no cancioneiro evangélico, mas muitos deles foram postos de lado por pura falta de se pensar numa roupagem contemporânea, que seja agradável e rejuvenesça o cântico. E há tantos outros que podem ser salvos da extinção, através deste simples procedimento. Porém deve-se ter o bom senso de produzir arranjos elegantes e adequados à congregação local.
Ressignificar o conceito de ministério – Não é toda congregação que tem músicos em quantidade e preparados para conceber e executar arranjos criativos, algumas não têm sequer um músico; então o que fazer? Realmente, o arranjo é um aspecto prático do que, havendo possibilidade, é viável por em prática, mas temos que ter em mente, que mais do que arranjos, o ministério musical da igreja tem como função, auxiliar a igreja em seu culto a Deus. Ressignificar o ministério é mudar a maneira como eu encaro aquele hino simples, que a igreja se sente tão bem cantando, que eu acabo tocando com a maior alegria. Também quer dizer que, quem vai ensinar um hino novo, vai ter mais amor ao fazê-lo, assim a igreja vai assimilar mais fácil. O ministério musical faz parte da igreja, tem que interagir com ela.
Ressignificar as declarações que fazemos quando cantamos – Isso é o principal, para a igreja e para os músicos, ninguém escapa. Em Isaías 55:11 aprendemos que a palavra de Deus não volta vazia; e domingo após domingo cantamos trechos desta palavra e poesias inspiradas nela. Porém, assim como nossa vida cristã pode ficar estagnada pelo desencanto da rotina, nós, de uma hora para a outra, corremos o risco de banalizar a espiritualidade e a importância de alguns cânticos, pois alguns deles já não têm para nós nenhuma novidade. Nesse ponto, nosso próprio culto fica comprometido. Nosso canto não é apenas a emissão de palavras em forma de melodia, mas a tradução de sentimentos e anseios do nosso coração, para uma linguagem musical, que em seguida é direcionada a Deus.
Não dá para tratar isso como se fosse uma coisa qualquer. As canções, novas ou antigas, ganham o sentido da mensagem que foi ou vai ser pregada, vêm a completar o que Deus propõe como tema para tratar em cada culto, e adquirem nova nuance conforme são cantadas com o coração grato a Deus. A partir daí podemos começar a entender o que a música é.
Não vamos apenas cantar. As coisa velhas já passaram; tudo se fez novo. Ressignificar, é recorrer ao mesmo terreno, para recolher a cada dia, um maná novo.
